O neopentecostalismo, vertente evangélica com maior representatividade no Poder Legislativo, embora influente nos governos desde a redemocratização, nunca havia se aliançado tão incisivamente a um líder político como aconteceu com Jair Bolsonaro. Essa aliança contribuiu para que bolsonarismo se tornasse um movimento popular, com forte capital político, o que pode ser visto no sucesso eleitoral que os agentes ligados ao ex-presidente ainda possuem entre parte dos evangélicos. Um dos efeitos preocupantes dessa aliança é a criação de um empecilho ao debate democrático por um discurso neopentecostal radical, que fragmenta a política entre aliados e inimigos da fé cristã.
Apesar de encontrarmos equiparação conceitual do termo “evangélico” ao “neopentecostal” em alguns campos acadêmicos e políticos, para explicar o sucesso da aliança entre Bolsonaro e o neopentecostalismo é interessante fazer distinções. Existem algumas premissas próprias da vertente neopentecostal que lançam luz sobre esse cenário, e neste artigo, elencamos três delas: a teológica, a histórica e a eclesiológica.
As igrejas neopentecostais surgiram a partir da terceira “onda” do pentecostalismo, nos anos 1970. Neste momento, duas doutrinas se incorporaram ao neopentecostalismo e fundaram sua premissa teológica: a teologia do triunfalismo e da prosperidade. O triunfalismo se baseia na premissa de guerra espiritual do bem contra o mal pelo domínio do mundo, partindo da noção de que todo cristão deve agir diligentemente para que o “bem” — o cristianismo e seus representantes — seja vitorioso em todos os campos da vida — seja espiritual e emocional ou mesmo social, jurídico e político. Transposta para o debate público contemporâneo, a lógica triunfalista transforma a política em uma arena de batalha entre o bolsonarismo (o bem) e seus opositores (o mal), na qual cristãos devem se engajar a todo custo, sacrificando a democracia se necessário, para que as premissas da sua religião triunfem politicamente.
Por sua vez, a teologia da prosperidade transforma a lógica meritocrática em moral religiosa, ao pregar que a abundância material é o desejo de Deus para seus fiéis. As lógicas de contribuição e arrecadação do cristão se fundamentam na premissa de que a prosperidade financeira, assim como o desenvolvimento econômico e o progresso da nação, são sinais de fé e da benção de Deus. Ambas as teologias são visíveis em discursos de líderes religiosos sobre Bolsonaro, como, por exemplo, na manifestação do pastor Rúben Lima em apoio à candidatura do ex-presidente em 2022. Na ocasião, o pastor da Igreja Assembléia de Deus em Botucatu/SP afirmou que os “crentes” que diziam: “vou votar no Lula”, não mereciam “tomar a ceia do Senhor”, por apoiarem um “sistema contrário ao desenvolvimento nacional e à fé cristã”.
Uma segunda razão que explica as afinidades eletivas entre neopentecostalismo e bolsonarismo é o desenvolvimento histórico do primeiro. No contexto da redemocratização, em que parte das denominações cristãs passaram a demonizar a política ou aderir a doutrinas mais refinadas de separação entre a Igreja e o Estado, as igrejas neopentecostais viram na política um meio legítimo para buscar a materialização das suas demandas através da representação eleitoral.
A partir disso, a estratégia das igrejas neopentecostais consistiu em apresentar, por meio de uma linguagem bíblica, candidatos que representem seu interesse em cultos públicos, como aconteceu com Bolsonaro nos pleitos que disputou. É nesse sentido que Silas Malafaia, pastor da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo e importante aliado político do ex-presidente, cita a seguinte passagem bíblica ao apresentá-lo como candidato em um culto em 30/10/2018, data do anúncio da vitória eleitoral de Bolsonaro: “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são”.
Uma terceira razão que explica a aliança entre neopentecostalismo e bolsonarismo reside na organização eclesiológica eleitoral, ou seja, na forma pela qual igrejas neopentecostais se ajustam para que os candidatos representantes dos interesses da denominação tenham a adesão do eleitorado neopentecostal. O trabalho de Ari Pedro Oro sobre o tema é chave para explicar a questão, explicando que o sucesso eleitoral dos candidatos neopentecostais é resultado da forma de organização dos cultos públicos, e da capacidade de trazer para o campo político importantes elementos práticos e simbólicos do campo religioso.
Influenciadas pela teologia do triunfalismo, as igrejas neopentecostais têm emplacado o lema “irmão vota em irmão” nos púlpitos de suas igrejas e em manifestações religiosas oficiais, para angariar votos dos fiéis aos candidatos representantes de suas demandas, como vocalizou o pastor neopentecostal André Valadão em vídeo ao lado de Bolsonaro na campanha para presidência em 2022: “Tem que votar certo (em Bolsonaro), se não você não é crente não”.
Tal instrumentalização da fé como elemento de convencimento político faz com que essa forma de atuação não possa ser confundida com outras modalidades de apoio. A sobreposição entre alinhamento moral-religioso e político-eleitoral reforça a ideia de que ir contra o candidato escolhido pela igreja não é uma questão de discordância política, mas um atentado contra a religião.
As três premissas — a teologia, o desenvolvimento histórico e a organização eclesiológica eleitoral — se complementam e reforçam uma à outra nos discursos neopentecostais alinhados ao bolsonarismo, cumprindo o efeito de forjar uma divisão social pautada por símbolos neopentecostais que identifica os adversários políticos como inimigos da fé cristã. Essa arquitetura discursiva tem sido eficaz em minar as possibilidades de inclusão de parte importante da população no debate democrático, ao mesmo tempo em que esvazia a disputa política com o agenciamento de demandas das igrejas neopentecostais.
Débora Donida da Fonseca é doutoranda em Direito pela USP e mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Integra a pesquisa “Massacres no Campo da Nova República”, realizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelo Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS) e o LAUT.
Fabricia dos Santos Santos é mestranda em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA), integrante do grupo de pesquisa “Constitucionalismo, Crise Democrática e Ideologias Políticas” e do Programa de Formação do LAUT.