5 livros para refletir sobre a violência política de gênero

O aumento de estudos sobre violência política de gênero e raça mostra a gravidade do problema e sua centralidade para entender os limites da democracia

5 livros para refletir sobre a violência política de gênero

Estudiosa de mulheres na política, tenho refletido sobre como pensar a participação das mulheres no campo político é, intrinsecamente, pensar nas experiências de violência política. Isso porque, ao acessar um espaço que lhes foi historicamente negado, as mulheres praticam um exercício de resistência, acompanhado de muita dificuldade.  Enfrentam barreiras simbólicas — como discursos de desqualificação, ameaças de morte, ridicularização e sexualização — bem como materiais, como a desigual distribuição do fundo eleitoral, o feminicídio político, o descumprimento de repasses financeiros, o assédio sexual. Nesse sentido, é importante entender que, quando falamos sobre violência política de gênero ou contra as mulheres, falamos sobre um dos principais obstáculos à consolidação das democracias, que opera como um mecanismo sistemático de exclusão e controle da presença das mulheres (no plural) nos espaços de poder. 

Embora ainda incipiente no Brasil,  o debate sobre o tema tem se ampliado significativamente nos últimos anos, impulsionado pelo avanço de agendas neoconservadoras e autoritárias que recolocam os corpos das mulheres no centro — ou como alvo — da disputa pública. A emergência de pesquisas, teses e relatos sobre violência política de gênero e raça revela a gravidade do problema e a necessidade de compreendê-lo como uma questão central para pensar os limites da democracia, da representação e do sentido da cidadania. Assim, para quem tiver interesse em se aprofundar no tema, os cinco livros elencados abaixo certamente auxiliarão na compreensão crítica do cenário.

  • Sempre foi sobre nós: relatos da violência política de gênero no Brasil

Manuela D’Ávila (orgs.) (Rosa dos Tempos, 2022)

Organizado por Manuela D’Ávila, o livro foi escrito por diversas mãos, sobretudo, daquelas que atuam cotidianamente na ação política. Composto por relatos em primeira pessoa como os de Benedita da Silva, Dilma Rousseff, Duda Salabert, Marina Silva e tantas outras, o livro nos fornece uma visão única, especialmente quando essas vozes são sistematicamente silenciadas por sistemas de dominação masculina. Nesse sentido, a obra evidencia como ameaças, assédio, difamação e violência simbólica funcionam como mecanismos de controle e exclusão política, articulando gênero e raça como eixos centrais de vulnerabilização, revelando a dimensão afetiva, subjetiva e material da violência, frequentemente ausente nas abordagens mais normativas.

Além desses relatos, chamo a atenção para o último capítulo, intitulado “A violência política sexista, racista e interseccional: mapeando conceitos de violência política contra as mulheres”, escrito pela professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos — grande estudiosa e pioneira no Brasil no debate de violência política contra as mulheres. Matos nos fornece um panorama do contexto sociopolítico e acadêmico dos debates contemporâneos sobre o conceito de violência política e sobre como a noção pode e deve ser inserida nos estudos de gênero e na ciência política para compreender os limites da democracia.

  • Violence Against Women in Politics

Mona Lena Krook (Oxford University Press, 2020)

Mona Lena Krook, referência consolidada nos estudos de mulheres na política, em Violence Against Women in Politics, realiza um debate sistemático do tema, tornando-o uma espécie de livro inaugural sobre violência política contra as mulheres. Ainda não traduzido para o português, o livro estabelece um marco conceitual sobre a violência política de gênero como um fenômeno específico, distinto tanto da violência política quanto de outras formas de violência de gênero, ao demonstrar que seu objetivo fundamental é deslegitimar, silenciar e excluir mulheres enquanto sujeitos políticos.

Partindo de um debate teórico, a autora propõe uma tipologia que inclui diversas dimensões da violência, como físicas, psicológicas, sexuais, econômicas e simbólicas, permitindo analisá-la como prática estruturada e recorrente, e não como custo colateral da competição política. Além do debate proposto, abre caminhos para abordagens interseccionais ao reconhecer que seus efeitos se intensificam quando articulados a marcadores como raça/etnia e classe, oferecendo, assim, uma base analítica robusta para estudos empíricos e para a formulação de políticas públicas.

  • Gênero e feminismos: Argentina, Brasil e Chile em transformação

Eva Blay, Lúcia Avelar e Patrícia Rangel (Edusp, 2019)

Produto de um projeto temático financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a obra é composta por capítulos escritos por referências nos estudos de gênero no Brasil. Dividida em três partes, a última, sobre violência política, é escrita por Lúcia Avelar e Patrícia Rangel, que analisam os discursos de ódio direcionados às presidentas da América Latina: Cristina Fernández de Kirchner (Argentina),  Dilma Rousseff (Brasil) e Michelle Bachelet (Chile). 

O livro é fundamental para desenhar um panorama qualificado das formas de violência na América Latina, analisando as especificidades e os pontos em comum entre os diferentes países, a partir do caso das agentes da elite política. Também contribui para os estudos sobre violência política de gênero e raça, situando essa violência no interior das disputas feministas por institucionalização de direitos e reconhecimento político. O trabalho ainda evidencia como os avanços normativos e a maior presença de mulheres nos espaços de poder coexistem também com formas persistentes de exclusão, deslegitimação e resistência conservadora.

  • Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política no Brasil

Malu Gatto e Débora Thomé (FGV, 2025)

Malu Gatto e Débora Thomé realizam um trabalho de fôlego neste livro ao examinar o ingresso de mulheres na política eleitoral brasileira com base em evidências empíricas robustas — algo particularmente desafiador para quem pesquisa agentes políticos e conhece as dificuldades de acesso a entrevistas. As autoras mobilizam 188 entrevistas com 102 candidaturas, abrangendo perfis diversos em gênero, raça, faixa etária, região e filiação partidária, a fim de investigar as condições concretas que moldam a decisão de concorrer, as dinâmicas internas dos partidos e as experiências vividas ao longo das campanhas.

Infelizmente, como não poderia deixar de ser, a violência política de gênero constitui um dos eixos centrais da obra, especialmente quando as autoras lançam luz sobre desigualdades institucionais, práticas partidárias excludentes, processos de deslegitimação simbólica e hostilidades direcionadas às mulheres, que configuram barreiras estruturais à participação política. Isto é, os materiais empíricos indicam que essa violência não se restringe a episódios explícitos  e inclui mecanismos sutis (ou simbólicos) de sabotagem, isolamento e subfinanciamento que afetam desproporcionalmente as candidaturas femininas. Trata-se, portanto, de uma referência importante para compreender a violência política de gênero no cotidiano das campanhas e na articulação à sub-representação feminina nos mais diversos níveis de poder.

  • Intersecções letais: raça, gênero e violência

Patricia Hill Collins (Boitempo, 2024)

Por último, mas nem de longe menos importante, a obra de Patricia Hill Collins é uma intervenção teórica de grande densidade no debate contemporâneo sobre violência, articulando marcadores sociais como raça/etnia, gênero, classe e sexualidade como eixos indissociáveis de análise. Neste livro, a autora examina como diferentes formas de violência (sejam elas físicas, simbólicas, institucionais ou estruturais) operam de maneira articulada na reprodução das desigualdades. Ou seja, evidencia que sistemas de poder estruturados pelo racismo, patriarcado, capitalismo e heteronormatividade são pilares do que denomina  “vulnerabilidades diferenciadas”.

Nesse sentido, “intersecções letais” nomeia os pontos nos quais  as múltiplas opressões convergem, intensificando riscos e restringindo possibilidades de agência para determinados grupos sociais, especialmente as mulheres negras. Para quem deseja aprofundar o entendimento sobre violência política de gênero e raça, o livro é particularmente relevante por ampliar a perspectiva analítica ao demonstrar que a violência dirigida às mulheres não pode ser compreendida de forma homogênea, mas deve ser situada nas interações concretas entre marcadores sociais e nas hierarquias que os atravessam.